terça-feira, 22 de junho de 2010

Sua história é a nossa história

"Meu histórico no AFS quase que se confunde com a história da minha vida.

Já nem lembro mais quando decidi fazer intercâmbio. Talvez não tenha decidido, talvez tenha sido uma consequência natural do meu envolvimento precoce com línguas.

O primeiro AFSer que eu conheci foi o Bellotti. Ele deve ter viajado em 1981. E nos conhecemos muito antes, lá por 1974 ou 75.

Em 1985, eu estava no primeiro ano do então segundo grau, quando me inscrevi para a seleção no comitê Rio Grande / RS. Rafael Olinto era o Presidente. E daí a formar meu círculo de amizade com aqueles returnees e aquelas host families não foi difícil.

Eu tinha só 14 anos e havia vários candidatos mais velhos que eu e tão merecedores da bolsa quanto eu. O comitê tinha então, a política de enviar primeiro os candidatos que já tivessem 17 anos (pois era seu último prazo para o YP- High School.

E brincavam comigo, dizendo que se houvesse bolsa para Sri Lanka era prá lá que eu iria. Me diziam que desistisse e voltasse no ano seguinte, então mais velha.

E eu continuava voluntária: quantas horas na rodoviária de Rio Grande com plaquinha na mão esperando gringos que vinham para AFS Weekends, quantos jantares para arrecadação de fundos, quantas campanhas para novas famílias hospedeiras, quantas idas a escolas divulgando o espírito AFS.

Chegava gringo, partia gringo, partia amigo, chegava amigo... e a minha casa sempre cheia de afsers, cada returnee um jantar - e todos contavam todas as suas experiências para uma família ansiosa pelo embarque da filha!

Outra seleção em 1986 e eu ainda era muito jovem! E mais amigos partiram e mais amigos voltaram. Ricardo, André, Alison, Miguel, Raquel, e tantos que já me fogem à memória.

Entrava ano e saia ano e tudo outra vez, testes de seleção, entrevistas, intercâmbios de curto prazo entre estudantes brasileiros, e assim passava o tempo.

Em 1987 finalmente a redenção! Eu estava entre os quatro selecionados (eu já tinha 16 anos, e estava no terceiro ano. Agora era a minha vez. Mas ainda esperaria 1 ano para embarcar.

No verão de 1988 em off fico sabendo que só um dos selecionados teria bolsa Garantida (G), outros três eram os Finalistas (F) - os F não tinham família hospedeira garantida, provavelmente até a hora de embarcar. Chorei, muito. Claro que eu apostava na impossibilidade de embarcar.

Então o Eduardo, presidente do comitê nos chama para uma reunião com todo o comitê. Eramos quatro, Cíntia, Marcelo, Gunnar e eu.

A reunião era uma festa surpresa. A bolsa garantida era minha e os papeis da família hospedeira já estavam no comitê! Os outros três teriam que esperar mais um pouco.

E todos esperamos ansiosamente pelas boas notícias para os outros três.

Para o Gunnar a espera não foi tão longa, logo ficou sabendo que uma família na Dinamarca o esperava. Marcelo e Cíntia não tiveram a mesma sorte.

E aquele ano de espera parecia ser o mais longo de todos. Mil planos, eu iria para o Maine, o estado mais nordeste dos Estados Unidos, numa cidade chamada Hallowell à espera da habitante de número 2501!

O ano no EUA é um capítulo a parte. A volta em 1989 foi também muito esperada. A volta significava também voltar a ser voluntária da instituição e continuar trabalhando para um mundo melhor e mais unido.

E foram outras tantas reuniões, seleção de candidatos, entrevistas com famílias, orientação de gringos - desta vez no comitê Porto Alegre.

Em 1991 responsabilidade maior me faz assumir a direção de envio da Região Sul (RS / SC / PR) e outros anos seguiram e eu continuava voluntária!

Não lembro bem quando eu "cansei" de ser voluntária, deve ter sido lá por 97 ou 98. Decidi então ficar mas na confortável posição de jurássica AFSer!

Mas era muito impossível parar de pronunciar o nome AFS, afinal meu círculo de amigos ainda era do AFS, gente que viajou comigo para os EUA, gente que já tinha viajado, gente que tinha hospedado, gente para quem não teve bolsas suficientes, gente muito mais velha que eu e gente muito mais jovem que eu.

No início dos anos 2000 mais uma vez "oficialmente voltei" e também "oficialmente me retirei".

E mais uma vez tive que abrir meu baú de lembranças e entusiasmo em relação ao AFS porque agora é a vez dos filhos dos meus amigos fazerem intercâmbio. Então acho que vou precisar "oficialmente voltar" mais uma vez!

E estamos em 2010 e entre idas e vindas lá se foram 25 anos. Tenho uma família em Gardiner, Maine com 5 irmãos, pai, mãe e muitos parentes (claro que troquei de família!). Tenho uma família de intercambistas (quase 40) que estavam no Maine. Tenho uma família de intercambistas que viajaram comigo no mesmo vôo Brasil-EUA. Tenho uma família de amigos que ainda estão bem pertinho: Claudirel, André, Dudu, Jordan, Luciano, Inês, as Cláudias, ... tantos que nem caberiam aqui!

E tenho também a deliciosa sensação de encontrar outros intercambistas e ser sempre recebida com sorrisos e abraços quando pronuncio AFS. Tenho a deliciosa sensação de continuar divulgando o AFS. Tenho a deliciosa sensação de ser bem recebida em qualquer lugar do mundo quando digo que sou AFSer."


(Clarissa Ribeiro - AFSer - foi para o Maine - EUA em 88/89)

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